A Carcaça do Conservadorismo
A obra incompreendida de Russell Kirk descobriu a imaginação moral da ordem americana
Para meu pai, que me ensinou o derradeiro ato de imaginação moral.
Este texto só tem uma pergunta a responder: ainda é válido discutir o conservadorismo em um país onde o seu patriarca maior, o Presidente da República, se orgulhou em 2021 de se afirmar como um seguidor deste tipo de pensamento, mas ele foi também responsável, direta e indiretamente, pela morte de mais de 693 mil pessoas?
Para isso, precisamos analisar o livro que é usado como uma Bíblia para os integrantes deste movimento – e lançado no Brasil justo no momento mais agudo da pandemia do coronavírus. Trata-se de A Mentalidade Conservadora (“The Conservative Mind”), escrito por Russell Kirk, de 1953, publicado pela É Realizações em uma luxuosa edição e traduzido por Márcia Xavier de Brito, que captura com precisão o elaborado estilo do autor.
A história desta obra é curiosa. Seu título original era para ser “A Diáspora do Conservadorismo”. Foi o resultado de uma tese acadêmica de dois volumes feita por Kirk quando ele estudava para um doutorado na Universidade de St. Andrews, em Fife, na Escócia. Nascido em 1918, o jovem pesquisador americano vinha do estado do Michigan e nunca se sentiu à vontade diante das instituições de ensino do seu país. Por causa da Segunda Guerra Mundial – na qual atuou no Exército como um soldado administrativo – foi obrigado a terminar os estudos na Europa.
Este ambiente o marcou para sempre (tanto até que influenciou o cenário do seu romance, Old House of Fear, de 1962). Ali, ele começou a analisar em detalhes os escritos de Edmund Burke (1729-1797), um estadista irlandês, mas atuante no parlamento do Império Britânico e que criou polêmica entre seus pares porque atacava diretamente o grande evento histórico a seduzir todos os políticos da época: a Revolução Francesa.
Kirk viu em Burke uma espécie de “alma gêmea”, um espelho das suas inquietações políticas e existenciais. Ambos olhavam o mundo onde viviam imerso na decadência religiosa, no desprezo pela comunidade e sendo atacado de todos os lados pelo crescimento do Estado moderno, o qual, combinado com a paixão pelo progresso da técnica, dava proeminência aos intelectuais que defendiam acima de tudo a abstração filosófica. Com isso, esses intelectuais se esqueciam de um componente muito importante da natureza humana: a imaginação.
Para Burke, o fato que detonou todo esse processo histórico inevitável foi a Queda da Bastilha; para Kirk, a sua própria época era filhote deste desastre – e cabia a ele impedir que a degeneração vista por seus olhos invadisse os seus semelhantes. Portanto, a redação da tese “A Diáspora do Conservadorismo” não era somente um belo estudo de erudição (o que de fato sempre foi); era também um manifesto de defesa daquilo que o seu próprio autor chamava de “as coisas permanentes”.
“A Diáspora do Conservadorismo” se transformou em “A Mentalidade Conservadora” quando o editor Henry Regnery decidiu publicá-la, desde que Kirk cortasse o manuscrito pela metade e aceitasse a troca de título, considerado mais comercial. O autor concordou. Em 1953, a primeira edição foi um sucesso inesperado. Era um livro que sintetizava algo que já tinha sido articulado por outros autores que participavam desta sensibilidade no mesmo período, como Richard Weaver (As Ideias Têm Consequências), Whittaker Chambers (a autobiografia Witness) e o futuro Nobel Friedrich Hayek (O Caminho da Servidão).
Porém, Kirk fez algo que esses outros escritores não conseguiram realizar. Ele criou uma tradição. A partir de Burke, considerado a matriz da “mentalidade conservadora”, o livro mostra que há uma “diáspora” do pensamento em relação à tirania do progressismo (algo diferente das virtudes do progresso humano). A contraposição feita por Kirk é a crença em uma ordem eterna que se reflete numa ordem espiritual, manifestada por uma política baseada na “prudência” (a phronesis de Aristóteles) e que tenta resistir à avalanche comandada pelos revolucionários radicais e os “intelectuais de gabinete”. Entre os seus representantes mais célebres dessa oposição, Kirk elenca pensadores variados como John Adams, Samuel Taylor Coleridge, Henry Adams, John Henry Newman, Irving Babbitt e T.S. Eliot.
Essa diversidade foi usada por críticos de Kirk como sua maior falha metodológica. Afinal de contas, Edmund Burke nunca foi um Tory (membro do Partido Conservador inglês) e sim um Whig (atuante do Partido Liberal). E o americano Henry Adams, com seu pessimismo assustador, não poderia ter muita relação com a busca desesperada por redenção de um Eliot. Contudo, para Kirk, é aí que se encontra a unidade na “diáspora”: justamente por causa desta pluralidade de ideias, essas mentes tinham algo em comum – a procura incessante pela “imaginação moral”.
Para entendermos melhor o que significa esse termo – e porque ele é diferente da nossa mera imaginação –, é necessário compararmos o livro de Kirk com uma outra obra – a da historiadora americana Jill Lepore, Estas Verdades: a História da Formação dos Estados Unidos. Partindo de uma perspectiva explicitamente progressista (mas sem transformá-la em uma ideia fixa), Lepore relata uma América que é um duplo invertido da história narrada por Kirk. Se, para este último, John Adams foi um presidente magistral, para Lepore ele não passava de um político resmungão; se para Kirk, Andrew Jackson foi um bom presidente, para ela foi o protótipo do populista que depois resultaria em Donald Trump; e se em A Mentalidade Conservadora, Ronald Reagan é considerado um “estadista supremo”, em Estas Verdades o mesmo papel cabe a Barack Obama.
Contudo, em um movimento surpreendente para uma acadêmica que faz parte do mesmo establishment do qual Kirk sempre foi opositor, Lepore chega às mesmas conclusões feitas pelo pensador do conservadorismo. De fato, segundo sua perspectiva, a sociedade americana foi dominada pelos “intelectuais de gabinete”, os ideólogos disfarçados de publicitários, marqueteiros políticos e colecionadores de previsões equivocadas – e que culminaram na morte da possibilidade de “navegar o navio do estado somente pelas estrelas”. Assim, guardada as devidas proporções na metáfora, isso seria o fim da mesma imaginação moral defendida por Kirk. Os diagnósticos convergem, mas Lepore tem uma vantagem: ela articulou o “abismo epistemológico” ocorrido no universo da política nesses últimos quarenta anos.
“A nação [os EUA] se perdeu na política de destruição epistemológica mutuamente assegurada”, escreve a historiadora. “Não havia verdade, apenas insinuações, boatos e preconceitos. Não havia explicações razoáveis; apenas conspiração”. Com o surgimento da direita alternativa [alt-right], em paralelo com a esquerda alternativa [alt-left], por causa da histeria provocada pelas redes sociais, tanto o conservadorismo de Kirk como o progressismo de Lepore dão as mãos na certeza de que a Declaração de Independência e a Constituição americanas estão completamente despedaçadas.
Porém, enquanto esse abismo epistemológico começava a contagiar a sociedade ocidental, especialmente a brasileira – enfraquecida por uma redemocratização claudicante –, o próprio Russell Kirk percebia que o seu tão querido conservadorismo não era mais suficiente para analisar o mundo. Os últimos livros dele (e suas verdadeiras obras-primas), como A Era de T.S. Eliot (1971), The Roots of American Order (1974) e a autobiografia The Sword of Imagination (1995), mostram que, pouco a pouco, o estadista deveria ser semelhante a um poeta que articula os dilemas de se viver em um lugar onde o seu fundamento filosófico – a imaginação moral – simplesmente desapareceu e foi substituído pela imaginação apocalíptica das teorias conspiratórias.
Nesta reviravolta, Kirk chega ao coração do dilema – e entende, justamente no final da vida, que a imaginação moral, ao contrario da apocalíptica, não é apenas um modo de aceitar a falibilidade humana, mas sim a única forma necessária para se encarar o grande problema que atormenta a todos nós, independente da nossa situação política: o da morte e do sofrimento.
Ele explicita isso em uma carta datada de 1993, um ano antes do seu falecimento, endereçada à sua filha Andrea. Prestes a ir para a faculdade de Piety Hill, ela recebe a seguinte notícia do pai: “Estou de fato com a saúde debilitada; talvez eu consiga uma boa ajuda na clínica onde me trato, mas é também possível, entre nós, que o meu septuagésimo-quinto ano provavelmente seja o último que estarei contigo. Escrevo isto não para alarmá-la, mas sim para prepará-la. Mas como você foi afortunada, Andrea, e eu também! Se este for o meu derradeiro ano neste planeta, eu e você estaremos juntos para isso, a escrever e a plantar flores no jardim e a caminhar e a ler e a conversarmos juntos, sempre contigo – a mais afetuosa das filhas.”
“Escrevo isto não para alarmá-la, mas sim para prepará-la”. Nesta singela frase, está sintetizada toda a imaginação moral da obra de Russell Kirk – e o verdadeiro conservadorismo que ele tanto defendeu. Infelizmente, o pai da nação brasileira há cinco anos, o nosso Presidente da República, mesmo orgulhoso de se afirmar conservador, fez o oposto de tudo isso. Ele jamais preparou o cidadão para a fatalidade da covid-19. Somente o alarmou, diminuindo a gravidade da doença – e com conspirações atrás de conspirações.
Como se não bastasse, é a continuação da total incapacidade do brasileiro de se viver segundo os ditames da liberdade interior, a que edifica as instituições democráticas da liberdade exterior, e que contamina até mesmo as nossas melhores mentes desde Pedro Álvares Cabral (é o caso do brilhante, porém antiquado, José Camilo de Oliveira Torres [1915-1973], que virou moda entre esses mesmos conservadores que apoiaram o Presidente). No primeiro tipo de liberdade, articulada por Platão e Sto. Agostinho, antes de conquistarmos a ordem do mundo, precisamos dominar as paixões que perturbam a ordem da alma – para sermos assim indivíduos completos.
O Presidente da República, portanto, não foi conservador, não era um indivíduo – e muito menos alguém completo. Ao trocar a vacina pela propina, o que ele fez com a “mentalidade conservadora” foi a mesma coisa dita pelo general francês Turenne, antes de ir para uma batalha decisiva em 1660, numa frase que Nietzsche adorava citar: “Carcaça, tu tremes? Tremerias ainda mais, se soubesses aonde te levo”.
Daí que chegamos à resposta da pergunta que motivou este texto: ainda vale a pena falar de conservadorismo com 693 mil mortes nas suas costas? Na verdade, o que temos aí não tem nada a ver com o que Russell Kirk ensinou aos leitores – e à filha Andrea -, antes de falecer. Temos somente uma carcaça. E ela é nossa. Seremos obrigados a carregá-la até o momento em que atravessarmos o vale onde estamos e enfim imaginarmos que há algum horizonte moral diante dos nossos olhos.
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Quando eu falo de vibeshift, falo na verdade de um processo que começou desde 2016, se aprofundou em 2018, foi sufocado em 2020 na época da COVID e se acelerou em 2022 com a popularização da IA. Há um nome específico para ele: “a revolta das elites contra a revolta do subsolo”.
Os três cursos que produzi de forma independente confirmam este diagnóstico.
O problema é que (quase) ninguém entendeu isso. E daí surge a confusão em que estamos metidos.
Aqui, vejam um trecho de uma das aulas:
Por exemplo: em RAÍZES (E CONSEQUÊNCIAS) DO TOTALITARISMO BRASILEIRO, eu analiso como as placas tectônicas da história do nosso país entraram em choque e como o sistema do Estado se tornou incapaz de permitir uma liberdade mínima para o cidadão.
Já em ALÉM DO ZERO: VIVENDO NA RELIGIÃO DA TECNOLOGIA, medito a respeito de como a mídia não consegue mais conversar com o leitor comum, pois a internet já entrou em entropia, buscando um “retorno às fontes”, e assim as instituições religiosas estão sem o norte do espírito.
E em DE ZERO A NERO: O QUE SHAKESPEARE ENSINOU A PETER THIEL SOBRE OS PERIGOS DA LIDERANÇA, disseco sobre a turma do Vale do Silício, que transforma o planeta e cria o vazio que nos desorienta atualmente.
(As informações sobre as ementas de cada curso podem ser lidas em cada link acima)
Dito isso, chegamos ao grande momento:
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