As Bestas
Amostras recentes do nosso eterno Carandiru Intelectual
Há um filme espanhol maravilhoso disponível no canal MUBI. Chama-se As Bestas, e é dirigido por Rodrigo Sorogoyen.
A história é sobre um casal de franceses, filhote da contracultura liberal hippie, que vai morar na Galícia, com seus sonhos ecológicos e de tolerância, e se vê obrigado a enfrentar uma dupla de camponeses brutos que o culpa pela pobreza da região, pois os “estrangeiros” votaram contra a implementação de energia eólica que poderia revitalizar a economia da comunidade.
E mais não digo para evitar os spoilers desnecessários. Mas já antecipo: haverá sangue.
Uma das observações mais sutis - e mais ácidas - do longa é a respeito de como a tolerância dos franceses acentua a tragédia que se segue. Ela evita a violência justa que poderia corrigir a raiz do problema.
Tal comparação pode ser feita com a situação da Venezuela, antes da invasão americana para expurgar o governo de Nicolas Maduro.
As últimas informações já deixaram claro que a culpa da calamidade naquele país não é do povo - que foi em massa para as urnas e deu vitória à oposição contra a ditadura de Maduro.
Ah, então o principal responsável é Lula e o Foro de São Paulo? Provavelmente. Mas Lula está tão endividado por não ter mais a máquina de propina da Odebrecht a seu dispor que, no fim, tornou-se também refém da retórica bolsonarista proferida por Maduro na reta final do pleito.
Mas há um fator a mais que ninguém quer ver. Talvez os principais culpados pela calamidade sejam a imprensa e o liberalismo (no sentido brazuca, por favor) que a fundamenta.
A imprensa é responsável porque ela acredita piamente que, nos últimos trinta anos, a Venezuela poderia se transformar em uma democracia.
E o liberalismo tem sua parcela de culpa porque ele é incapaz de perceber, graças à sua visão otimista sobre a natureza humana, a maldade intrínseca ao nosso comportamento.
Esses dois tipos de atitude criaram um entorpecimento moral, cuja consequência é acreditar que, numa tirania como a Venezuela, nunca foi necessária uma intervenção radical para corrigir a desordem que ali se instalou.
Sem a intervenção americana, a Venezuela será sempre uma latrina do mundo.
As reações do Brasil e dos EUA (por meio da então vice-presidente Kamala Harris) indicam que o entorpecimento continuará como se nada tivesse acontecido. Afinal, a tolerância é boa para quem ainda vive numa democracia - mesmo que essa mesma democracia tenha de compactuar com as tiranias que moram à margem da civilização.
No fundo, assim como ocorre na obra de Rodrigo Sorogoyen, as bestas somos nós, os civilizados.
Resumo da ópera: apoiem a Venezuela, assistam ao longa.
O Cemitério Das Ideias
Há pouco tempo surgiram no Brasil os podcasts, como Flow e Inteligência Ltda, que se vendiam como alternativa à grande imprensa, com assuntos e pessoas imprevisíveis, sempre imitando o inimitável Joe Rogan.
Tudo ia muito bem, até que uma das estrelas desse nicho, Monark, resolveu falar umas bobagens a respeito do nazismo e, por isso, foi cancelado pelo público, pela mídia, pelos próprios sócios e, depois, pelo STF, que o transformou em um modelo de desobediência civil.
A partir daí, os podcasts perceberam que não havia outra maneira de sobreviver se deixassem de imitar o Joe Rogan e passassem a imitar nada mais, nada menos que a velha imprensa.
A programação do podcast Inteligência Ltda. é sempre uma verdadeira “cracolândia do pluralismo”. Geralmente, começa com um bolsonarista de alto gabarito e afeito a teorias conspiratórias de quinta categoria (porque aqui eu só me importo com as de primeira), passa por um stalinista linha-dura e termina com um judeu antissemita (e se vocês acharam que ficaríamos escandalizados com a presença da “modelo erótica” que filma seus vídeos picantes com o filho já adulto, nós garantimos que isso é o menor dos problemas).
O jogo dos podcasts é o seguinte: fingir que são programas “diferentões”, com gente esquisita, mas, ao mesmo tempo, atrair notoriedade para ganharem audiência de um público sedento por drogas pesadas. Na verdade, o que era para ser novidade com os Monarks da vida tornou-se um esquema semelhante ao que já vimos no passado com o Raul Gil, o Programa do Ratinho e Márcia Goldschmidt.
O que isso significa? Significa que, depois da “era de ouro” dos podcasts, eles não têm mais público. São números imaginários que só servem aos algoritmos do YouTube e do Spotify (duvidam? perguntem à IBM e à Embratel).
Mas há algo ainda mais preocupante nessa estratégia: ao contrário de Joe Rogan, que, para o bem e para o mal, realmente entrevista seus convidados porque se prepara para isso, em geral os nossos podcasters são mais obtusos e míopes do que os jornalistas profissionais (alguém já se esqueceu quando Monark e Igor perguntaram a Luís Felipe Pondé sobre quem era esse sujeito chamado Paulo Francis?).
Rogan faz perguntas incômodas e inteligentes aos entrevistados; já aqui, o que temos é um sujeito com óculos escuros, fazendo pose de inteligente, e balbuciando alguma interjeição para deixar o seu convidado falar a porcaria que quiser.
Por que o que vocês acham que Jones Manoel e Breno Altman vão falar? Pérolas de sabedoria? Tanto os podcasts como a imprensa confundem a tal da “liberdade” de expressão com a “libertinagem” de expressão. Acham que o anormal é o novo normal - e, por isso, deseducam o leitor (ou o espectador), tornando-o absolutamente insensível a qualquer tipo de novidade que apareça diante dos seus olhos.
Do outro lado, quando o Flow abriu o seu braço jornalístico, o Flow News, também conhecido como “Escolinha do Professor Tramontina” (nossa homenagem ao carro-chefe da grade), a situação foi minguando de tal forma que hoje ninguém se importa se o canal acabou ou não.
Se antes tínhamos a cracolândia do pluralismo, temos aqui o “cemitério das ideias”, com direito a um descobridor das Américas entrevistando a si mesmo em um monólogo que daria sono a Samuel Beckett.
Em suma: ao imitar a imprensa, tanto no aspecto asséptico como no selvagem, a indústria de podcasts apenas cavou a própria cova - e provou que, como tudo no Brasil, a sua verdadeira vocação sempre foi para ser uma tremenda besteira.
Anatomia De Um Pepino
Não à toa, atualmente, quando lemos as críticas cinematográficas na imprensa, somos obrigados a nos penitenciar como um numerário do Opus Dei, especialmente na hora de encarar o que Walter Porto escreveu, lá no distante ano de 2024, a respeito de Anatomia de uma queda, longa francês dirigido por Justine Triet, ganhador da Palma de Ouro em Cannes de 2023 e depois indicado à estatueta de Melhor Filme.
Há alguns anos, Walter Porto foi promovido a ser o repórter de livros da Ilustrada. Hoje ele é o homem que comanda o caderno de variedades da Folha - e para pior. Antes, sua função era cobrir o mercado editorial. Porém, ocorria que, às vezes, na falta de um crítico literário, ele também cometeu umas resenhas. Sua predileção de assunto é a cultura woke. Claramente, é um defensor dela. Até aí tudo bem, cada um faz o que conhece melhor, mas o problema é quando tudo leva a crer que ele divulga somente uma parcela deste setor (afinal, o mundo é vasto, etc. e tal).
Na época, algum editor da diretoria da Folha resolveu incumbi-lo para dissecar o filme de Triet pelo prisma da “narrativa”. Ah, a “narrativa”. De fato, um dos temas de Anatomia de uma queda é sobre o “choque de narrativas” em torno de uma mulher acusada de matar seu esposo, um infeliz que não conseguiu assumir as escolhas difíceis que fez na vida.
Ocorre que isso é apenas a superfície da obra. E, para alguém que mexe com livros (ou com cultura), recorrer a este recurso é um crime contra a linguagem - e contra o leitor. Olhem este trecho:
A performance de Sandra —Voyter, a personagem, e Hüller, a atriz— apresenta ao público uma mulher real criando autoficção ao longo de 150 minutos. É a anatomia de um casal, com vida e morte em comum, sendo escrita, corrigida, aperfeiçoada diante dos nossos olhos para convencer que aquele ponto de vista é coerente, plausível. E inocente.
Já com o filme avançado, uma terceira pessoa, ficcionista de enorme potencial, se dá conta da influência que poderia ter ao elaborar uma boa narrativa quando fosse sua vez de tomar o palco —e o faz, no que rende a cena de maior impacto audiovisual do filme justamente pelo descompasso desconcertante entre áudio e vídeo.
Os clichês do repórter “descolado” estão todos lá: “autoficção” (Proust mandou um abraço), “ficcionista de enorme potencial” (apesar da personagem no filme já ter três livros publicados), “influência” e “descompasso”. Meus leitores, citando Magritte: isto não é uma crítica. É um pepino. E dos grandes.
Por quê?
Simples: porque contrataram um repórter que não entendeu nada do filme que assistiu. É por isso que antes havia a figura do crítico (Verdade seja dita: na mesma página chamaram Inácio Araújo para falar a respeito do longa, mas ele deve ter errado de sala e foi ver outro filme, pois seu texto é absolutamente incompreensível). Ele analisava o que foi exibido diante dos seus olhos. E mais: sabia a que tradição aquele (ou aquela, se pensarmos em Triet) cineasta fazia parte.
(É de se perguntar porque a Folha chama um repórter de livros para falar de uma obra cinematográfica desse calibre, quando poderia encomendar o mesmo tipo de texto a um Sergio Alpendre, um Filipe Furtado, um Miguel Forlin ou um Luís Villaverde, que simplesmente estão à margem do que se passa nas redações da Barão de Limeira).
E qual é então o assunto de fato de Anatomia de uma queda? Não é sobre “narrativas” ou sobre a “busca pela verdade”. É sobre o amadurecimento traumático de uma criança (o formidável Milo-Machado Graner) que, no meio de uma tragédia ímpar, decide ser infinitamente mais adulta do que os próprios pais e, indo além, do que o próprio sistema judiciário, o qual está louco para condenar a sua mãe porque assim tudo se resolve da maneira mais exata e técnica possível.
Ao modo de Otto Preminger em Anatomia de um crime (1958; sim, Triet está brincando com esse clássico) e de um David Fincher em Zodíaco (2008), a cineasta analisa a queda da Europa pelos olhos de um menino (que, por uma ironia macabra, é cego). Daí o título - ou vocês acham que é um acaso o detalhe de que a mãe é alemã e o pai é francês, justamente as duas nações que comandam a política da União Europeia? É uma Europa paternalista, que cria essas “narrativas” fajutas porque é incapaz de encarar a sua própria história (sim, há uma diferença entre uma e outra, mas isso não vem ao caso agora).
A insistência da nossa imprensa cultural em decifrar filmes complexos por meio de clichês - algo também copiado pelos influenciadores de redes sociais e dos podcasters, que competem entre si na miopia analítica, seja do lado da direita ou da esquerda - só prova que, infelizmente, não estamos em nenhum porto seguro. Não à toa, a leitura do cenário político passa pelo mesmo problema (e a redação aqui jura que se alguém citar a batida frase de Hugo Von Hoffmanstahl, vamos mandar este sujeito ir para onde o Judas bateu as botas). A nossa política se tornou um caso de polícia porque somos obrigados a engolir os pepinos escritos por um Walter Porto da vida.
Depois não sabemos porque ficamos entre Lula e Bolsonaro Jr.. E o pior: somos incapazes de fazer a anatomia da nossa própria queda.
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AVISO: NOVO CURSO - RAÍZES (E CONSEQÜÊNCIAS) DO TOTALITARISMO BRASILEIRO
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Queridos leitores:
Temos um novo curso: RAÍZES (E CONSEQUÊNCIAS) DO TOTALITARISMO BRASILEIRO.
(No decorrer das aulas, os alunos perceberão que eu falo “Raízes do autoritarismo brasileiro” o tempo todo, mas o nosso departamento de marketing resolveu alterar o título para melhorar as vendas. Não vou discutir.)
Trata-se de um prosseguimento do assunto que abordei nos cursos anteriores (mas agora aplicados na perspectiva brasileira), De Zero a Nero - O que Shakespeare ensinou a Peter Thiel sobre os rumos da liderança, e Além do Zero: Vivendo na Religião da Tecnologia, que você pode adquirir respectivamente aqui e aqui.
Serão seis aulas, de 30 minutos a 1 hora de duração, todas já gravadas.
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(Pediria também a paciência de me dar um prazo de 24 horas para responder, pois sou “o exército do eu sozinho” nesta empreitada)
Qualquer dúvida, é só conversar comigo por e-mail ou via DM do Substack.
Agora a única coisa que posso lhes dizer é: obrigado pela confiança no meu trabalho - e eu espero que consiga cumprir as expectativas.
Um forte abraço do
MVC





