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Os Novos Deuses

Ou: as origens da lenda do doutor Fausto

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Martim Vasques da Cunha
Sep 16, 2022
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1.

Com quantas versões se faz a História? Ou melhor: com quantas lendas se faz um homem? Estas são as perguntas a serem feitas quando nos deparamos com Johannes Faustus, ou Georgius Faustus, ou Johann Faust – e esta multiplicidade de nomes revela o quanto é complicado lidar não com um homem, mas com a sombra de um homem, a sombra de alguém que mexeu com um elemento que atravessou várias épocas e que também gosta de confundir aqueles que pretendem estudá-lo: o Diabo.

O pacto do doutor Fausto com o Capeta é uma das lendas mais conhecidas do nosso imaginário popular. Trata-se de uma história profundamente alemã, mas que ultrapassou qualquer convenção territorial e tornou-se um mito universal o qual retrata como estamos presos em um mundo de mistério e como nunca poderemos conhecer a verdadeira natureza de qualquer pessoa ou entidade, seja o próprio Fausto, o Diabo e até mesmo Deus.

Essa história é também uma sucessão de narrativas que parece esconder uma ordem interna, uma espécie de aviso que, somado a outras peças, pode nos ajudar a chegar a alguma conclusão neste alucinado quebra-cabeças. Vamos então aos fatos - ou pelo menos aquilo que nos contam em relação ao famoso doutor Fausto.

2.

Parece que um provável Georg Faust nasceu por volta de 1480, numa pequena cidade chamada Knittlingen; morreria sessenta anos depois, aproximadamente em 1540, numa outra cidadezinha, Staufen. Nesse meio tempo, Faust dissemina sua fama com as alcunhas de “mágico”, “astrólogo”, “feiticeiro”, “adivinho”, “o segundo Mago” e “líder dos nigromantes”.

Fica claro em todos esses apelidos duas coisas sobre esta pessoa: sua ambição e o conhecimento das coisas ocultas que não fazem parte do nosso mundo. O próprio nome Fausto em latim significa “afortunado” e em alemão “punho”, o que já denota algo fechado, cerrado, hermético e misterioso. A época entre 1480 e 1540 na Alemanha, apesar de marcar o auge do Renascimento na Itália e nos Países Ibéricos, ainda se assemelhava muito à Idade Média. A população era iletrada e, em poucos anos, passaria por uma revolução religiosa com o surgimento de Lutero e o protestantismo. O ambiente era cercado de referências a bruxas, feiticeiros, demônios, fantasmas e profecias aterradoras. Havia muitas sombras neste mundo invisível que ninguém conhecia - exceto, claro, sujeitos como Fausto.

Como deveria se esperar, este Fausto teve muitos inimigos, e até mesmo os seus estudantes de confiança acreditavam que ele tinha alguma relação especial com o Diabo; outros sugeriam a possibilidade dele ser o próprio caramunhão. De toda forma, relatos sobre seus atos começaram a surgir, e o primeiro data de 1507, escrito por um rival de Fausto, o monge beneditino Johannes Tritheim. Numa longa carta, conta um evento de tom anedótico, mas revelador sobre a Alemanha daquela época. Fausto está em Erfurt, então um famoso centro de estudos universitários, dando uma palestra sobre Homero para estudantes maravilhados com a versatilidade do homem. Quando ele começa a narrar a guerra de Tróia, em especial o episódio com Polifermo, Fausto surpreende a todos:

“Ele tinha uma revolta barba vermelha, e estava devorando um sujeito, cujas pernas se sacudiam do lado de fora da boca [narrava Fausto]. A aparência de Fausto assustava muito a plateia, a ponto de deixar todos os cabelos eriçados até o final da palestra, e quando o Doutor Fausto tratou de sair, agiu como se estivesse fora de si e também quisesse meter dois deles entre os dentes. E com uma barra de ferro, bateu tão fortemente no chão que o colégio inteiro tremeu, e então, foi embora”.

Embora estes atos talvez tivessem o propósito de chocar, Fausto desafiava a todos com declarações decididamente sinistras. “Ele disse diante de muitas pessoas”, comenta o monge Tritheim, “que os milagres de Cristo, o Salvador, não eram tão maravilhosos assim, que ele próprio era capaz de fazer, tantas vezes quanto lhe desse na vontade, tudo aquilo que Cristo havia feito”. A comparação com Cristo não era aleatória. Segundo o inglês Ian Watt, quando Fausto afirmava ser o “Segundo Mago”, ele se referia aos Magi, uma antiga tribo dos Medas, conhecida como adivinhos, mas também se referia a Simão, o Mago.

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